CONSIDERAÇÕES SOBRE A DANÇA DO VENTRE

Sobre a Dança do Ventre, arte que pratico há aproximadamente vinte anos, só se sabe um fato certo em sua história: Sua nomenclatura mais antiga – de acordo com as mais recentes descobertas históricas – é Dança do Leste. O resto é especulação e história oral que necessita de investigação científica. E está claro que não pode mais ser chamada de Dança do Leste, Raks El Shark, etc… é Dança do Ventre mesmo! O Leste fica logo ali, mas o Ventre fica logo aqui e em toda parte. É a dança de todas as que têm ventre, seja lá a cultura a que pertençam. O Tribal Fusion está aí por e para isso.

A Dança do Ventre já foi tão modificada e reestruturada na noite dos tempos, mas o sentimento da bailarina continua o mesmo; desde a camponesa babilônica até a suburbana de New York. Poucos são os escritos sobre essa arte, nunca completamente compreendida em sua essência. Esse é um conhecimento passado pessoalmente entre as gerações, muitas vezes de forma secreta e tem sobrevivido às piores guerras e destruições… porque é um ato acolhedor e que conforta o espírito de todos que presenciam essa Dança da Vida.

Pintura oitocentista orientalista

A bailarina do Ventre emana amor e fertilidade quando mexe os quadris e todo o seu corpo. O seu perfume é o veneno que contamina o ar que seu cabelo corta…. e apesar das mudanças temporais e culturais, os movimentos raramente sofrem alterações, porque é uma arte universal e conecta todas as mulheres do mundo. Seus movimentos ondulatórios são como a fumaça atemporal das essências nos turíbulos orientais.

O passado sempre é alterado por motivos que refletem as necessidades humanas. Nós reformulamos nossa herança para torná-la atraente em termos contemporâneos; buscamos torná-la parte de nós, e nós parte dela. Dessa forma, adequamos a arte à nossa auto-imagem e aspirações. Desenhada grandiosa ou familiar, aumentada ou suavizada, a história é continuamente alterada em prol de nossos interesses particulares, ou em favor de motivos de força maior. Por essas razões a Dança do Ventre foi tão reinterpretada e recheada de novos aspectos.

Assim, podemos perceber a evolução dos trajes performáticos no oriente e no ocidente e a relação entre espectadores e corpo da bailarina. Com a universalização da dança do ventre, bailarinas incorporam sua própria identidade cultural em seu modo de dançar. Diante dos diferentes estilos, destacam-se o egípcio, o turco, o latino-americano, o norte-americano e o nórdico. Analisando historicamente a estética e a técnica utilizadas, percebemos o devir da história feminina e suas evoluções nas diversas culturas do mundo.

BratzGenieGroup

No século XX grandes transformações ocorreram: Em 50’s e 60’s as atrizes de Hollywood e bailarinas árabes apresentavam-se com os mesmos deslocamentos, mostrando que as atrizes estavam cada vez mais dispostas a estudar profundamente os movimentos do Leste e contribuir para o enriquecimento da dança (muito foi vulgarizado, porém os benefícios foram maiores). Em 70’s surge o Tribal Americano e as distinções sobre o conceito da dança; americanas trabalham o véu com novos movimentos e praticam o “retorno da Deusa” embarcando nas filosofias feministas, enquanto a dança no Oriente tornou-se cada vez mais comercial e turística. Já em 80’s a dança chega aos ambientes de menor influência árabe até então, como América Latina e Oceania.

Com a popularização da dança, surgem as instituições e organizações que buscam padronizá-la e qualificar bailarinas de acordo com o que se pensa ser o modus operandi de praticar a dança. A institucionalização da dança e a obtenção de selos de qualidade podem levar a bailarina a perder ou encontrar sua liberdade de expressão e sua individualidade artística, então, na contemporaneidade, a bailarina encontra mais esse obstáculo para exercer sua arte.

Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia que bailarinas têm de si como sujeitos integrados.

Pode-se até dizer que a globalização cria novos sujeitos, pois o que se vê é a decaída de pensamentos racionais e cartesianos que dão lugar a concepções externalizadas a partir do interior dos indivíduos. Enquanto o processo de globalização lança a tendência de homogeneização, há também uma fascinação com a diferença e com a mercantilização da etnia e da alteridade; juntamente com o impacto global, surge um novo interesse pelo local e pelo individualmente étnico.

Então, o que realmente importa são as conexões entre bailarinas de todo o mundo e a troca de vivências que o avanço tecnológico proporciona. As trocas culturais libertam nossa criatividade. Todas somos uma.