O PODER DO XALE

Em termos simbólicos o xale ainda é pouco estudado, nem sequer está contido nos melhores dicionários de símbolos. Porém é um artefato mágico dos mais eficientes. Assim como outras imagens primordiais, ele está presente em todas as culturas, pois trata-se de uma vestimenta básica no universo feminino. Durante muitos anos estudei o xale nas culturas cigana e europeia, mas ultimamente venho pesquisando seus atributos por outros cantos do mundo…

Bailaora y su mantón

O xale lembra as vovós, seus bordados e o aconchego materno. Usá-lo significa retornar ao lar. Então, apesar de representar todas direções cardeais e elementais em sua forma de quadrante, o xale nos leva mesmo ao elemento terra… é a busca pela Mãe Terra e suas profundezas, é a riqueza do abrigo, do amparo e da proteção.
Assim, o trabalho mágico com o xale remete à terra e a ancestralidade por meio da beleza de seu bordado.
Nas “cartas xamânicas”, Jamie Sams reserva uma de suas cartas para o xale e escreve:

“A Mãe Terra acolhe em casa seus filhos
Quando eles se extraviam.
O caminho era ermo e comprido,
Ela lhes sussurra que fiquem,
Sob a proteção do Xale,
Onde o amor volta a habitar.
Seus corações podem abrir-se para recordar
Todos os Parentes como seus amigos.”

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Carta do Xale

A tomada do xale é um ensinamento Paiute. Esses nativos americanos escolheram voltar para casa e abraçar os ensinamentos dos seus Anciões.
Portanto, quem usa o xale está percorrendo um caminho de retorno ao lar que é tecido a muitos fios e que promove um encontro com as mais diversas linhas. O uso do xale pode entrar e sair de moda, mas sempre retorna para nos aquecer, proteger e nos guiar no caminho da beleza. As mulheres incas usam seus xales presos por um broche, tupus, um artefato que possibilitou aos arqueólogos identificar estátuas ou múmias como sendo do sexo feminino.
A mesma ideia do xale como os braços amorosos da grande mãe é expressa entre os celtas na figura de Brigith como a Senhora do Manto. O manto da Deusa não apenas cobre e protege todo o território, mas também envolve cada pessoa que recorre a ela por proteção. Os fios de que é tecido seu manto são os filamentos que conectam todas as coisas em uma grande teia de vida.
Da próxima vez que usar um xale, sinta a Grande Mãe envolver você em seu abraço amoroso e protetor.

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Dança do xale das índias norte-americanas.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A DANÇA DO VENTRE

Sobre a Dança do Ventre, arte que pratico há aproximadamente vinte anos, só se sabe um fato certo em sua história: Sua nomenclatura mais antiga – de acordo com as mais recentes descobertas históricas – é Dança do Leste. O resto é especulação e história oral que necessita de investigação científica. E está claro que não pode mais ser chamada de Dança do Leste, Raks El Shark, etc… é Dança do Ventre mesmo! O Leste fica logo ali, mas o Ventre fica logo aqui e em toda parte. É a dança de todas as que têm ventre, seja lá a cultura a que pertençam. O Tribal Fusion está aí por e para isso.

A Dança do Ventre já foi tão modificada e reestruturada na noite dos tempos, mas o sentimento da bailarina continua o mesmo; desde a camponesa babilônica até a suburbana de New York. Poucos são os escritos sobre essa arte, nunca completamente compreendida em sua essência. Esse é um conhecimento passado pessoalmente entre as gerações, muitas vezes de forma secreta e tem sobrevivido às piores guerras e destruições… porque é um ato acolhedor e que conforta o espírito de todos que presenciam essa Dança da Vida.

Pintura oitocentista orientalista

A bailarina do Ventre emana amor e fertilidade quando mexe os quadris e todo o seu corpo. O seu perfume é o veneno que contamina o ar que seu cabelo corta…. e apesar das mudanças temporais e culturais, os movimentos raramente sofrem alterações, porque é uma arte universal e conecta todas as mulheres do mundo. Seus movimentos ondulatórios são como a fumaça atemporal das essências nos turíbulos orientais.

O passado sempre é alterado por motivos que refletem as necessidades humanas. Nós reformulamos nossa herança para torná-la atraente em termos contemporâneos; buscamos torná-la parte de nós, e nós parte dela. Dessa forma, adequamos a arte à nossa auto-imagem e aspirações. Desenhada grandiosa ou familiar, aumentada ou suavizada, a história é continuamente alterada em prol de nossos interesses particulares, ou em favor de motivos de força maior. Por essas razões a Dança do Ventre foi tão reinterpretada e recheada de novos aspectos.

Assim, podemos perceber a evolução dos trajes performáticos no oriente e no ocidente e a relação entre espectadores e corpo da bailarina. Com a universalização da dança do ventre, bailarinas incorporam sua própria identidade cultural em seu modo de dançar. Diante dos diferentes estilos, destacam-se o egípcio, o turco, o latino-americano, o norte-americano e o nórdico. Analisando historicamente a estética e a técnica utilizadas, percebemos o devir da história feminina e suas evoluções nas diversas culturas do mundo.

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No século XX grandes transformações ocorreram: Em 50’s e 60’s as atrizes de Hollywood e bailarinas árabes apresentavam-se com os mesmos deslocamentos, mostrando que as atrizes estavam cada vez mais dispostas a estudar profundamente os movimentos do Leste e contribuir para o enriquecimento da dança (muito foi vulgarizado, porém os benefícios foram maiores). Em 70’s surge o Tribal Americano e as distinções sobre o conceito da dança; americanas trabalham o véu com novos movimentos e praticam o “retorno da Deusa” embarcando nas filosofias feministas, enquanto a dança no Oriente tornou-se cada vez mais comercial e turística. Já em 80’s a dança chega aos ambientes de menor influência árabe até então, como América Latina e Oceania.

Com a popularização da dança, surgem as instituições e organizações que buscam padronizá-la e qualificar bailarinas de acordo com o que se pensa ser o modus operandi de praticar a dança. A institucionalização da dança e a obtenção de selos de qualidade podem levar a bailarina a perder ou encontrar sua liberdade de expressão e sua individualidade artística, então, na contemporaneidade, a bailarina encontra mais esse obstáculo para exercer sua arte.

Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia que bailarinas têm de si como sujeitos integrados.

Pode-se até dizer que a globalização cria novos sujeitos, pois o que se vê é a decaída de pensamentos racionais e cartesianos que dão lugar a concepções externalizadas a partir do interior dos indivíduos. Enquanto o processo de globalização lança a tendência de homogeneização, há também uma fascinação com a diferença e com a mercantilização da etnia e da alteridade; juntamente com o impacto global, surge um novo interesse pelo local e pelo individualmente étnico.

Então, o que realmente importa são as conexões entre bailarinas de todo o mundo e a troca de vivências que o avanço tecnológico proporciona. As trocas culturais libertam nossa criatividade. Todas somos uma.