Via Pulchritudinis

A beleza vai muito além de um padrão estético e, independente de culturas, ela abrange o universo e a natureza de cada ser. Nem todos os olhos conseguem enxergá-la porque ela não está disponível à primeira vista. Aliás, é preciso entender que nada realmente precioso será encontrado com facilidade, principalmente na cybervida.

A verdadeira beleza está no de profundis e é a própria divindade manifesta. É transfigurada do êxtase e, toda vez que este me vem à cabeça, lembro-me de Teresa D’ávila, que muito bem utilizou a metáfora do castelo, apontando-o para o céu e refletindo suas moradas estelares. Palavras dela:

“A porta do castelo é a oração. Consideremos agora que este castelo tem muitas moradas: umas no alto, outras embaixo, outras aos lados; e, no centro e meio de todas estas, tem a mais principal onde se passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma. Parece que digo algum disparate; porque, se este castelo é a alma, claro que não se trata de entrar, pois se é ele mesmo, pareceria desatino dizer a alguém que entrasse num aposento estando já dentro.
Mas haveis de entender que vai muito além de estar a estar; que há muitas almas que ficam à volta do castelo, onde estão os que o guardam, e que se lhes não dá nada de entrar, nem sabem o que há naquele tão precioso lugar, nem quem está dentro, nem mesmo que dependências tem. Já tereis visto, em alguns livros de oração, aconselhar a alma a que entre dentro de si; é isto mesmo.
Dizia-me há pouco um grande letrado, que as almas que não têm oração são como um corpo paralítico ou tolhido que, embora tenha pés e mãos, não os podem mexer; e são assim: há almas tão enfermas e tão habituadas às coisas exteriores, que não há remédio nem parece que possam entrar dentro de si mesmas” (Castelo Interior, escrito por volta de 1500… não lembro os números das páginas. O leitor pode baixar o .pdf e ler gratuitamente). 

A estética está indissoluvelmente ligada à ética e à moralidade. Mas para a beleza não há fronteiras, pois o verdadeiro diálogo se dá entre as identidades que se reconhecem como tal em suas diferenças.
E assim, em minhas andanças pela magia do amor em busca do coração profundo, recordo uma máxima da oralidade xamânica sobre a crença dos navajos de que a beleza os circunda. E eles sintetizam isso em uma oração. Não é um comentário sobre a paisagem ou sobre o que está nela, mas sobre a harmonia e o equilíbrio de todas as coisas, entre elas o indivíduo dando voz à oração. É um pedido para manter o equilíbrio, tanto interiormente quanto no mundo afora. A espiritualidade dos navajos é dedicada a manter esse equilíbrio de modo que todos sigam a beleza.

Com a beleza antes de mim, que eu ande.
Com a beleza atrás de mim, que eu ande.
Com a beleza acima de mim, que eu ande.
Com a beleza abaixo de mim, que eu ande.
Com a beleza ao redor de mim, que eu ande.
Oração Navaja.

IMG_3293

Esse tema inesgotável remete ao discurso maravilhoso de Roger Scruton com seu documentário “Por que a beleza importa?”, algo que deveria ser assistido por muitas almas necessitadas da compreensão de que a arte não pode ser decretada em qualquer objeto ou em qualquer gesto e deve provocar as mais sublimes emoções. A beleza e a arte são plenas em si mesmas e ultrapassam qualquer utilitarismo.

Ps: Abaixo há duas versões do vídeo, a primeira sem legendas e a segunda com legendas em português.

Why Beauty Matters – Por que a beleza importa from jinacio on Vimeo.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE A DANÇA DO VENTRE

Sobre a Dança do Ventre, arte que pratico há aproximadamente vinte anos, só se sabe um fato certo em sua história: Sua nomenclatura mais antiga – de acordo com as mais recentes descobertas históricas – é Dança do Leste. O resto é especulação e história oral que necessita de investigação científica. E está claro que não pode mais ser chamada de Dança do Leste, Raks El Shark, etc… é Dança do Ventre mesmo! O Leste fica logo ali, mas o Ventre fica logo aqui e em toda parte. É a dança de todas as que têm ventre, seja lá a cultura a que pertençam. O Tribal Fusion está aí por e para isso.

A Dança do Ventre já foi tão modificada e reestruturada na noite dos tempos, mas o sentimento da bailarina continua o mesmo; desde a camponesa babilônica até a suburbana de New York. Poucos são os escritos sobre essa arte, nunca completamente compreendida em sua essência. Esse é um conhecimento passado pessoalmente entre as gerações, muitas vezes de forma secreta e tem sobrevivido às piores guerras e destruições… porque é um ato acolhedor e que conforta o espírito de todos que presenciam essa Dança da Vida.

Pintura oitocentista orientalista

A bailarina do Ventre emana amor e fertilidade quando mexe os quadris e todo o seu corpo. O seu perfume é o veneno que contamina o ar que seu cabelo corta…. e apesar das mudanças temporais e culturais, os movimentos raramente sofrem alterações, porque é uma arte universal e conecta todas as mulheres do mundo. Seus movimentos ondulatórios são como a fumaça atemporal das essências nos turíbulos orientais.

O passado sempre é alterado por motivos que refletem as necessidades humanas. Nós reformulamos nossa herança para torná-la atraente em termos contemporâneos; buscamos torná-la parte de nós, e nós parte dela. Dessa forma, adequamos a arte à nossa auto-imagem e aspirações. Desenhada grandiosa ou familiar, aumentada ou suavizada, a história é continuamente alterada em prol de nossos interesses particulares, ou em favor de motivos de força maior. Por essas razões a Dança do Ventre foi tão reinterpretada e recheada de novos aspectos.

Assim, podemos perceber a evolução dos trajes performáticos no oriente e no ocidente e a relação entre espectadores e corpo da bailarina. Com a universalização da dança do ventre, bailarinas incorporam sua própria identidade cultural em seu modo de dançar. Diante dos diferentes estilos, destacam-se o egípcio, o turco, o latino-americano, o norte-americano e o nórdico. Analisando historicamente a estética e a técnica utilizadas, percebemos o devir da história feminina e suas evoluções nas diversas culturas do mundo.

BratzGenieGroup

No século XX grandes transformações ocorreram: Em 50’s e 60’s as atrizes de Hollywood e bailarinas árabes apresentavam-se com os mesmos deslocamentos, mostrando que as atrizes estavam cada vez mais dispostas a estudar profundamente os movimentos do Leste e contribuir para o enriquecimento da dança (muito foi vulgarizado, porém os benefícios foram maiores). Em 70’s surge o Tribal Americano e as distinções sobre o conceito da dança; americanas trabalham o véu com novos movimentos e praticam o “retorno da Deusa” embarcando nas filosofias feministas, enquanto a dança no Oriente tornou-se cada vez mais comercial e turística. Já em 80’s a dança chega aos ambientes de menor influência árabe até então, como América Latina e Oceania.

Com a popularização da dança, surgem as instituições e organizações que buscam padronizá-la e qualificar bailarinas de acordo com o que se pensa ser o modus operandi de praticar a dança. A institucionalização da dança e a obtenção de selos de qualidade podem levar a bailarina a perder ou encontrar sua liberdade de expressão e sua individualidade artística, então, na contemporaneidade, a bailarina encontra mais esse obstáculo para exercer sua arte.

Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia que bailarinas têm de si como sujeitos integrados.

Pode-se até dizer que a globalização cria novos sujeitos, pois o que se vê é a decaída de pensamentos racionais e cartesianos que dão lugar a concepções externalizadas a partir do interior dos indivíduos. Enquanto o processo de globalização lança a tendência de homogeneização, há também uma fascinação com a diferença e com a mercantilização da etnia e da alteridade; juntamente com o impacto global, surge um novo interesse pelo local e pelo individualmente étnico.

Então, o que realmente importa são as conexões entre bailarinas de todo o mundo e a troca de vivências que o avanço tecnológico proporciona. As trocas culturais libertam nossa criatividade. Todas somos uma.